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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Mitologia e cultura Quícua

O pensamento do povo quíchua apresenta-nos os princípios fundamentais: relacionalidade, correspondência, complementaridade. Reciprocidade e ciclocidade. Especifique cada um deles apresentando suas características.

Foi muito gratificante fazer esta leitura sobre o pensamento e a cultura Quichua. Gratificante por perceber que se trata de um enorme sistema aberto e conectado, não individualista ou mesmo fundado em uma relação sujeito-objeto tal como é o pensamento ocidental. Através dos conceitos de relacionalidade, correspondência, complementaridade, reciprocidade e ciclicocidade podemos deduzir o tipo de ética e relacionamento humano sábio e generoso presente neste pensamento. Ao contrário da afirmação  parmênica “o ser é, o não ser não é”, na tradição Quichua todos os seres são.

Os princípios que organizam o pensamento deste povo tem uma característica forte de relação e conectividade, evitando assim o erro da exclusão e da rejeição. Como não poderia ser diferente, estes princípios são todos interdependentes e não subsistem sozinhos, e a compreensão de um leva ao entendimento do outro. Sua integração rege o Pacha, que é a totalidade do universo.
O princípio da relacionalidade é o princípio que conecta todos os entes, garantindo assim que nenhum ente esteja isolado ou excluído, afirmando assim a conectividade de todas as coisas, pessoas, natureza e universo, afirmando assim radicalmente a dependência de todos os entes. Ela se manifesta em todos os níveis da existência.
O princípio da correspondência afirma que para cada relação dos entes, corresponde a uma relação em âmbito cósmico ou maior. Assim, aqui podemos ver um exemplo do famoso dizer da lei hermética “assim em cima como em baixo”. Cada atitude ou ação corresponde a uma ação cósmica. Também os judeus em suas escrituras afirmam algo parecido, como em: “quem salva uma vida salva o mundo inteiro.”
O princípio da complementaridade realiza a possibilidade de completude dos entes, e para tudo na existência existe uma oposição que o complementa. Essa oposição, No entanto, não é confronto, mas a possibilidade de ser completo.
A reciprocidade é a contribuição correspondente de cada ato, assim, aquele que vem em minha direção, espera de minha parte uma reciprocidade, uma aceitação. Essa relação recíproca não se dá apenas entre as pessoas, mas de forma cósmica.
Por fim, o princípio da ciclocidade é um pensamento sábio da observação da natureza, que por sua vez, através do princípio da correspondência, é também o comportamento do cosmos. Esse princípio afirma o ir e vir das coisas, no tempo e no espaço, de forma circular e não linear.  Assim como o fluxo das marés e a ir e vir das estações.

Filosofia Tojolabal

Podemos especificar que na Filosofia Tojolabal a noção de “Nosoutros” quer expressar o seu caráter individual por sobre o grupal? Ademais outra particularidade da Filosofia Tojolabal especifica a expressão “eu disse, tu escutaste” – importância de escutar o outro. Nela encontramos tipificada para aquele pensamento a relação entre sujeito-objeto. Essa afirmação é correta? Justifique seu argumento!

A Filosofia Tojolabal

O povo tojolabal é um entre os diferentes povos maias. Eles habitam no Sudeste do México. Esse povo vive nessas terras há muitos séculos antes da conquista europeia. A cultura deles contrasta fortemente com a dos europeus que invadiram a América com crueldade, no século XVI, dizimando-os ou tornando-os seus escravos, além de eliminar sua cultura e impor–lhes a europeia. Os espanhóis tinham uma cultura hierárquica e autoritária; os tojolabais, ao contrário, se organizavam horizontalmente, pois para eles Nosoutros é sua categoria fundamental: isso significa que eles não têm nem reis nem chefes, tampouco caudilhos, caciques ou mandões. O poder é exercido pelo Nosoutros (comunidade); por isso não se encontra nas mãos de uma minoria, mas é exercido pela comunidade Nosoutros em que todos são responsáveis pelas decisões que se fazem necessárias.
Segundo Lenkersdorf (DUSSEL, MENDIETA; BOHÓRQUEZ, 2009, p. 33-35), pode-se apontar cinco palavras que são o “fundamento ontológico da filosofia tojolabal”, a saber: a intersubjetividade, a “nosotrificação” (o processo pelo qual, no final, todos se identificam como participando do nosoutros), o antissolipsismo, o saber escutar e o fato de que tudo vive e nós somos apenas um tipo dos inúmeros entes viventes.

A Noção de “Nosoutros”

Comecemos pela importância do nosoutros no pensamento e vida do tojolabal. Veja a grande diferença da língua portuguesa em relação à tojolabal. Vamos comparar a estrutura dessas duas línguas. Quando no uso linguístico destes indígenas se diz: Um de nosoutros infringimos a lei, onosso idioma se exprime assim: um de nós infringiu a lei. O tojolabal acentua o nosotutros, porque para ele as infrações não são individuais, mas toda a sociedade é corresponsável pela infração de um de seus membros. O que predomina é o grupo e não seus indivíduos. Observa Lendersdorf que “nas enciclopédias europeias nem aparece o termo nosoutros, pois nas sociedades dominantes não é uma Categoria.” (DUSSEL; MENDIETA; BOHÓRQUEZ, 2009, p.33)
Como para eles tudo tem vida, esse termo tojolabal – nosoutros - compreende não só a sociedade humana, mas todos os entes do cosmo. Os humanos, assim, são apenas uma das diferentes espécies de entes entre uma quantidade inumerável de outros seres vivos que se deve respeitar e aprender a conviver com eles sem nunca tratá-los como objetos. Assim, nossa relação com a natureza não é de dominação, mas sim respeito e convivência. , pois, na verdade, a natureza é nossa Mãe, que nos dá a vida e nos mantém com vida. E as coisas que nos cercam não são objetos, mas sujeitos. Lendersdorf nos dá outro exemplo que esclarece melhor a questão do nosoutros:
Em espanhol se diz: eu te dije [eu te disse, em português]. A expressão correspondente em tojolabal é: eu dije, tu escuchaste [eu te disse e tu escutaste]. Na estrutura portuguesa como na espanhola passa-se da ação do sujeito eu para o objeto te. O autor, certamente, é o eu. A estrutura correspondente em tojolabal, ao contrário, é de dois sujeitos com seus verbos correspondentes e sem objeto (acusativo). Em termos gerais podemos afirmar que em tojolabal, em lugar de objetos, há diferentes classes de sujeitos que se complementam; os sujeitos não subordinam os objetos, como ocorre em português e em espanhol. Por isso, em tojolabal se dá uma subjetividade intersubjetiva (sujeito-sujeito) em lugar da relação sujeito-objeto. (DUSSEL; MENDIETA; BOHÓRQUEZ, 2009, p. 34)


A Importância de Escutar o Outro

Devemos observar mais outra particularidade na expressão tojolabal eu disse, tu escutaste. Nela, além de não haver relação entre sujeito-objeto, os dois sujeitos se complementam. Ambos são autores, e um precisa do outro para acontecer a comunicação recíproca. Por isso, é importante perceber que não há objetos nessa frase; em seu lugar aparece a complementaridade dos sujeitos.
É preciso salientar um terceiro aspecto dessa frase tojolabal, com implicações importantes para a Filosofia: a intersubjetividade. Nas proposições dos idiomas europeus, há o sujeito que age e o objeto que sofre a ação. Em tojolabal ao contrário,
... os dois sujeitos, que se complementam, mostram que sempre ambos são ativos e passivos um em relação ao outro. Aquele que fala escuta aquele que ouve e aquele que ouve escuta ao que fala. Se não se der essa dupla ação com duplo sentido, ainda que se diga mil palavras, só se dizem “abobrinhas”“. O escutar é um elemento fundamental da comunicação e, certamente, da língua (DUSSEL; MENDIETA; BOHÓRQUEZ, 2009, p. 34).
O autor observa ainda que – como no Ocidente só se ensina línguas escritas e não se estuda as que se ouve (as faladas), temos graves problemas para escutar. Em geral todos nós somos péssimos ouvintes A razão é que não se ensina a escutar. Nesse contexto é importante saber que os tojolobais têm dois termos diferentes para indicar ruma língua/palavra falada (kumal) e escutada (abal). Lekensdorf diz que os tojolabais se chamam a si mesmos “os que sabem escutar bem”. Aquele que escuta presta atenção no outro para aprender dele. “Assim se forma um nosoutros entre os dois, aquele que fala e aquele que escuta ... Ao escutar o outro, o respeitamos como o igual de quem podemos aprender o que nos diz” (DUSSEL; MENDIETA; BOHÓRQUEZ, 2009, p. 34).
E aqui aparece uma inferência sumamente importante:
Aquele a quem escutamos não pode ser nosso inimigo. Por isso, pode-se compreender por que os tojolabais não têm a palavra que corresponda à inimigo, porque sabem escutar. A convivência de quinhentos anos com os ocidentais, contudo, lhes ensinou quem são os inimigos.
Para os tojolabais tudo vive e, por isso, o milharal fica triste quando não o visitamos diariamente. [...] As casas também vivem. Por isso as casas não só são o reflexo do gosto de quem a mandou construir, mas, por sua vez, formam seus habitantes. [...] Dito de outro modo, a partir da perspectiva tojolabal e com base em que todos os seres vivem, as casas não são montes de pedras mortas, mas sim formadoras de nossos corpos, as quais, por outra parte, nosoutros temos edificado. Em que espécie de casa viveis? interpelam-nos sempre os tojolabais (DUSSEL; MENDIETA; BOHÓRQUEZ, 2009, p. 34-35).
Assim, a categoria Nosoutros nivela, com equidade e justiça, todas as relações sociais, não distinguindo os de cima e os de baixo; e elimina o desejo individualista de ser o primeiro ou o melhor. A educação é o processo de nosoutrificação em que todos aprendem a repartir seus conhecimentos e sua sabedoria.
Ao ser examinado na escola, os alunos se reúnem para avaliarem todos juntos, porque a solução de qualquer problema se alcança com o consenso e intervenção de todo mundo, o que pressupõe que todos entendem o problema. (DUSSEL; MENDIETA; BOHÓRQUEZ, 2009, p. 35).
Do mesmo modo, o poder político se distribui entre todos e rotativamente, em lugar de outorgá-lo a uma autoridade presidencial ou a um partido. É interessante esse modo de conceber o poder político, porque, assim, a responsabilidade está nas mãos de todos e não de um indivíduo ou grupo. Assim, esse pensamento é antissolipsista:
Por isso, eles rechaçam o solipsismo, o egoísmo, a competência, seja de um partido, de uma autoridade, de uma só semente ou de um só cultivo e também de um só deus. Por isso uma mulher jovem disse: “Veja, agora querem ensinar-nos que todo o mundo foi feito por um só, quem pode crer nesses contos?”, e o disse depois de 500 anos de evangelização e presença da civilização ocidental (DUSSEL; MENDIETA; BOHÓRQUEZ, 2009, p. 35).
Nós, os brancos da cultura ocidental filosófico-cristã somos insensíveis a esses gritos abafados desse povo originário da América Latina. Torna-se urgente aprender a escutar o outro, sobretudo o oprimido.
Em conclusão, estamos diante de um pensamento bem diverso do de nossa cultura europeia. Os conceitos fundamentais - intersubjetividade em que todos os entes tanto os humanos como os demais seres do universo são sujeitos e assim se torna impossível a relação sujeito x objeto; a “nosoutrificação” que é o processo pelo qual, no final, todos os humanos tomam consciência e se identificam como partes da comunidade nosoutros; o antissolipsismo que é consequência direta do fato de todos os entes fazerem parte da comunidade nosoutros - são conceitos totalmente novos para nós.
O saber escutar que preserva a alteridade do outro e mostra o que Lévinas também defende: o outro sempre é um mestre para quem escuta; e o fato de que tudo vive e nós somos apenas um tipo de entes viventes - são teses que chocam os homens da cultura europeia e é uma das razões principais de os povos originários não serem apreciados pelos conquistadores e até hoje pelo poder hegemônico de nossa América Latina.
Certamente essa cultura tojolabal, ela nos interpela e nos propõe a transformar em profundidade não só nossas relações com os seres humanas, mas também com todos os demais entes de nosso universo. Com os tojolabais temos muito a aprender, sobretudo a escutar o outro, pois, se realmente escutamos os outros, isso implica ter desenvolvido uma profunda atitude ética de respeito a sua alteridade, de acolhimento do outro como nosso mestre, no dizer de Lévinas.

Mitologia e racionalidade

As culturas primitivas, a partir de um conjunto de problemas existenciais e socioeconômicos, levantam um núcleo de questões problemáticas que podem ser anunciadas em forma de mito. Contudo, diversamente dos mitos gregos, os mitos latino-americanos não trazem o mesmo nível de racionalidade daqueles gregos. Podemos fazer essa afirmação?

Os mitos, que surgem em todas as culturas, diz Dussel (DUSSEL; MENDIETA; BOHÓRQUEZ, 2009, p. 16), se constituem como uma resposta a essas questões. É o primeiro tipo racional de interpretar a realidade existencial e o mundo dos indivíduos e da sociedade. É importante destacar que os mitos não são irracionais, mas têm uma forma típica de racionalidade: são narrativas simbólicas e apresentam significados universais. Esses mitos são guardados, primeiro, na modalidade de memória oral e, depois, cerca de mil anos antes de Cristo - na Mesopotâmia, no Egito, na América Central e em outras culturas – são preservados na modalidade escrita. Esses mitos, interpretados pelos sábios, se tornam explicações racionais simbólicas para responder a todos os principais problemas e questões daquelas culturas.

Os mitos, que surgem em todas as culturas, diz Dussel (DUSSEL; MENDIETA; BOHÓRQUEZ, 2009, p. 16), se constituem como uma resposta a essas questões. É o primeiro tipo racional de interpretar a realidade existencial e o mundo dos indivíduos e da sociedade. É importante destacar que os mitos não são irracionais, mas têm uma forma típica de racionalidade: são narrativas simbólicas e apresentam significados universais. Esses mitos são guardados, primeiro, na modalidade de memória oral e, depois, cerca de mil anos antes de Cristo - na Mesopotâmia, no Egito, na América Central e em outras culturas – são preservados na modalidade escrita. Esses mitos, interpretados pelos sábios, se tornam explicações racionais simbólicas para responder a todos os principais problemas e questões daquelas culturas.
Nos choques culturais, esses mitos são depurados: alguns perduram, mesmo depois do aparecimento das categorias filosóficas ou científicas e outros perdem sua força argumentativa e, por essa razão, eles são desacreditados, como aconteceu com os mitos dos astecas que pretendiam justificar a necessidade de sacrificar pessoas humanas para aplacar os deuses.
Mas, embora os mitos sejam tão racionais quanto a filosofia e as ciências (são discursos diferentes porque servem a finalidades diversas), ao longo do tempo, começa-se a substituição da linguagem mítica - de natureza simbólica e carregada de múltiplos sentidos - por um discurso unívoco, metodicamente estruturado por categorias filosóficas que podem definir seu conteúdo sem recorrer ao símbolo e determinar com rigor um significado preciso. Esse fenômeno se deu em todas as grandes culturas.
Assim, a passagem do mito para a filosofia, ao mesmo tempo, significa ganho por produzir um saber mais preciso e perda por eliminar sua sugestão de múltiplos sentidos. Mas, de qualquer forma, parece ser o pensamento unívoco, como diz Dussel:
... um avanço da civilização importante à medida que abre novos caminhos pela possibilidade de efetuar atos de abstração, de análise, de separação de conteúdos semânticos da coisa ou do fenômeno observado, do discurso, e torna possível uma descrição precisa da realidade empírica, a fim de permitir ao observador um manejo mais eficaz em vista da reprodução e desenvolvimento da vida humana em comunidade (DUSSEL; MENDIETA; BOHÓRQUEZ, 2009, p. 16).

Essa passagem do discurso mítico simbólico para um discurso com categorias intelectuais unívocas aconteceu em todas as grandes culturas como, por exemplo, no Egito, com a filosofia de Menfis; na China, a partir do livro das Mutações I chingna Índia, com os Upanishads;na Pérsia e no Mediterrâneo oriental, a filosofia se deu entre os fenícios e os gregos; na América Central, entre os maias e astecas; nos Andes entre os aymarás e os quéchuas que se organizaram no Império Inca.